sábado, maio 13, 2017

“What makes the desert beautiful
is that somewhere it hides a well.”
Antoine de Saint-Exupery

Tutti-Frutti, duas pedras de gelo

Ainda agora tinha chegado e já lhe passava pela cabeça ficar ali para sempre. Havia um quadro gigante na parede, em tons de vermelho, um abstracto pouco ou nada geométrico de qualidade muito questionável, seria um milagre alguém conseguir arrancar-lhe qualquer tipo análise rebuscada, daquelas que povoam as galerias cosmopolitas. Era simples, assumidamente desperetencioso, eficiente. Encheu-lhe as medidas e esvaziou-o dos emaranhados. Sentiu-se em paz, liberto de inimizades ou cumplicidades de artíficio. Inspirou fundo genuinidade, as pessoas, ali, eram só o que ele via, não que fossem diminutas, mas antes porque pareciam não se censurar. Estava muita gente, surpreendeu-o, a luz do dia era já escassa e o fim-de-semana estava a terminar. Quase todos com o telemóvel na mão, enquanto falavam barulhentos. Um rock demasiado clássico, quase brejeiro, atrapalhava o som das vozes. Era perfeito.
Tinha vindo sem certezas, o intuito era desfocado e sem contexto, mas deu-se conta que a verdade é que as pessoas entregam-se a movimentos abruptos, não para se escapulirem da vida que os tenta ludibriar, mas antes para procurarem os oásis a que não prestam a devida atenção, os desertos são extenuantes, mas é neles que moram os mais revigorantes momentos. E havia, ali naquele sítio que antes desconhecia, tantos, acessíveis, sem preço, sem queixas, sem filtros, sem apegos, sem demandas nem ilusões, sem histórias de fadas, só pedaços de vida excessivamente colorida, bruta e estupida, alheia a pretérios ou premonições. O sumo de frutas era delicioso. Quis ficar ali para sempre, outra vez.
Não havia ali nada que ele pudesse classificar como lixo, deixaria para outros a nobre tarefa de julgar. Inclusive a ele. E seria errado querer ficar ali para sempre? Não sabia, ninguém saberia, os irreprensíveis são os que mais se afogam em remorsos e contradições. Sentaram-se perto dele, o couro desgastado do sofá soou-lhe expectante e ao mesmo tempo promissor. Enquanto falavam, concluiu que deveria ter sido um artista em potencial, constantemente aquém das expectativas, sabia-se demasiado inocente para não o ter tentado. Tinha encontrado mais um oásis, os desertos nunca são infinitos. Sentiu-se bem ao sair dali, com nada que fosse para sempre.

terça-feira, maio 09, 2017

“The truth is that it is natural, as well as necessary,
for every man to be a vagabond occasionally.”
Samuel H. Hammond

“Everyone, deep in their hearts,
is waiting for the end of the world to come.”
Haruki Murakami

A Exímia e Primordial Alternativa

Exímia na arte das diabolices, corria, de alma manca e cabeça erguida, as ruas e as tascas da cidade, repletas de multidões sedosas do primeiro sol e merecida folia. Nos bolsos pequenos, enfiava as notas e moedas que conseguia sacar aos turistas, não era de fazer contas de cabeça, mas a vida nunca lhe parou à porta a perguntar por isso, era plasticina suave e bem oleada. Esgueirava-se por entre os dias mais difíceis com irrepreensível desdém por moralidades de cardápio, trazia no peito um coração mais antigo do que ela, incandescente, arrancado a uma rocha de quando o mundo se fez, inquebrável.
Os cabelos negro-lisos, cortados ao calhas, e os olhos azul-água, emprestavam-lhe enérgica melancolia. O corpo magro e musculado, escravo de sorriso maroto, movia-se em sofrida subtileza. A voz mostrava-se em resoluta aravia, enquanto deambulava por entre as mesas das esplanadas junto ao rio. Sentia-se extensão do chão que pisava, mas não sabia que os passos que atirava eram apenas ilusão de menina-princesa. Ela, a mulher-ardósia abundantemente polvilhada com pó de giz, em permanente desequilíbrio, entre as estórias rabiscadas à pressa e o apagador frenético inconsequente. Fingia-se de pedra, exímia na arte de endurecer os outros, transmutava-se flexível, pervencia as dificuldades atraindo a mais requintada espécie de baquista, que adorava bajular e aguar. Só pelo gozo. Ao mesmo tempo, repudiava, à boca cheia, as vidas que, tão partidas como as dela, se escondiam em fatos, gravatas e vestidos de seda, arrumadas em caixinhas de cartão fino, em tons leves de azul e rosa, etiquetadas. Porque as vias, embriagadas de efémera liberdade, afogarem-se na merda que religiosamente colecionavam.
Achava-se à parte, separada da normalidade. A espaços e só, permitia-se chorar lágrimas conta-gotas, era assim que suspirava e expurgava a saudade do dia-a-dia sem sobressaltos, sabia que nunca lhe iria pesar o tédio e a corriqueira certeza do amanhã. E não conseguiria imaginar quantos lhe invejavam, em contradição transparente, os rebolões e as nódoas negras de viver sem travões. Ironicamente, oferecia a todos a íntima certeza de alternativa palpável e intemporal. Nunca se extinguiria, fazia parte do primordial sonho dos outros. Exímia na arte de ser vagabundo, era farol-chamariz, vivo e fluorescente, fundeado em águas profundas, em dias de tempestades perfeitas: porque o inevitável só espera para acontecer e o sagrado desejo dos navengantes é naufragar.