segunda-feira, junho 05, 2017

“Adversity is the first path to truth”
Lord Byron
Do desnexo sentido de caminhar de costas

Esbarra-se num sentido obrigatório sem direcção. Tropegamente, traça-se o caminho nas costas de uma fotocópia qualquer. Metem-se os pés à estrada que se vai construindo e faz-se, das incertezas e tempestades, o coração puro e inteiro. Descarnam-se os joelhos, arrastam-se peito e testa no alcatrão rugoso. Vê-se apenas chão, inspira-se poeira aos pedaços. Percebe-se que se mataram propositadamente os sorrisos, em nome dos percalços do percurso, é-se incapaz de recordar os troços leves que se percorreu. Escolhe-se reflectir.
Pára-se. Bufa-se com gotículas de saliva. Sente-se o suave sabor das perspectivas. Rebola-se e dá-se as costas ao piso quente. O céu está onde sempre esteve. As folhas dos antigos rascunhos guardam ainda muito espaço, branco. É-se certo de prevalecimento: os caminhos são vivos, este pode muito bem não querer ir para Roma e decidir terminar num qualquer bar junto a uma praia da Aguda. É-se certo das dificuldades e obstáculos, e mesmo assim escolhem-se os pés assentes, desiste-se da demagogia esfumaçada em insanidade e nem a sucata se entrega aos bandidos.
Afogam-se memórias indecisas em banho-maria, frustra-se o incontrolável e explode-se a latente vigência. É-se grato pelo ensinamento de que os sentidos não se concretizam pela obrigatoriedade sensorial, constroem-se sólidos nas prioridades genuínas e inquebráveis: não se colhe fruta verde, mesmo que já esteja bonita. Se se nasce para ser de ninguém, vive-se basculante em trapézio sem rede. O caminho, só se faz sentido, inteiro. Caso contrário, não se pode senão sucumbir desvanecido, às costas fortuitas e efémeras de outros tantos desnortes ali à mão de semear. Escolhe-se. Não se esbarra. Muito menos se empanca. 

sábado, maio 13, 2017

“What makes the desert beautiful
is that somewhere it hides a well.”
Antoine de Saint-Exupery

Tutti-Frutti, duas pedras de gelo

Ainda agora tinha chegado e já lhe passava pela cabeça ficar ali para sempre. Havia um quadro gigante na parede, em tons de vermelho, um abstracto pouco ou nada geométrico de qualidade muito questionável, seria um milagre alguém conseguir arrancar-lhe qualquer tipo análise rebuscada, daquelas que povoam as galerias cosmopolitas. Era simples, assumidamente desperetencioso, eficiente. Encheu-lhe as medidas e esvaziou-o dos emaranhados. Sentiu-se em paz, liberto de inimizades ou cumplicidades de artíficio. Inspirou fundo genuinidade, as pessoas, ali, eram só o que ele via, não que fossem diminutas, mas antes porque pareciam não se censurar. Estava muita gente, surpreendeu-o, a luz do dia era já escassa e o fim-de-semana estava a terminar. Quase todos com o telemóvel na mão, enquanto falavam barulhentos. Um rock demasiado clássico, quase brejeiro, atrapalhava o som das vozes. Era perfeito.
Tinha vindo sem certezas, o intuito era desfocado e sem contexto, mas deu-se conta que a verdade é que as pessoas entregam-se a movimentos abruptos, não para se escapulirem da vida que os tenta ludibriar, mas antes para procurarem os oásis a que não prestam a devida atenção, os desertos são extenuantes, mas é neles que moram os mais revigorantes momentos. E havia, ali naquele sítio que antes desconhecia, tantos, acessíveis, sem preço, sem queixas, sem filtros, sem apegos, sem demandas nem ilusões, sem histórias de fadas, só pedaços de vida excessivamente colorida, bruta e estupida, alheia a pretérios ou premonições. O sumo de frutas era delicioso. Quis ficar ali para sempre, outra vez.
Não havia ali nada que ele pudesse classificar como lixo, deixaria para outros a nobre tarefa de julgar. Inclusive a ele. E seria errado querer ficar ali para sempre? Não sabia, ninguém saberia, os irreprensíveis são os que mais se afogam em remorsos e contradições. Sentaram-se perto dele, o couro desgastado do sofá soou-lhe expectante e ao mesmo tempo promissor. Enquanto falavam, concluiu que deveria ter sido um artista em potencial, constantemente aquém das expectativas, sabia-se demasiado inocente para não o ter tentado. Tinha encontrado mais um oásis, os desertos nunca são infinitos. Sentiu-se bem ao sair dali, com nada que fosse para sempre.