domingo, outubro 22, 2017

“Man is not what he thinks he is,
he is what he hides.”
André Malraux
Nunca haverá pior amor


Ele tinha outra pessoa quando a conheceu. E continuou a ter. Ele disse-lhe, a ela, para abandonar tudo e ir com ele para o outro lado do mundo. Lá, ele disse-lhe, a ela, para se ir embora, sozinha, sem que ela tivesse nada onde se agarrar. Ele ia ter com ela nos dias de maior solidão e ela recebia-o de braços abertos. Depois, ele passava meses sem lhe falar, a ela. Ele falava-lhe alto, insultava-a, desprezava-a, acusava-a, cega e injustamente. Ele disse-lhe, a ela, que o esquecesse, que ela era fraca, que nada tinham em comum. Ele perguntou-lhe, a ela, outra vez a ela, se o filho era dele. Ele traiu-a, frio e calculista, enquanto ela estava grávida. Ela abriu-lhe, a ele, as portas da sua casa, outra vez, sem nunca lhe pedir nada em troca. Ele humilhou-a numa festa de anos de uma amiga. Ele foi morar para longe, dela, dias depois de se casarem. Ele, infundadamente, desconfiou dela (só a ela), pôs-lhe uma escuta em casa, ouviu-lhe os pensamentos mais íntimos, que só a ela cabiam. Ele disse-lhe, a ela, que apenas estaria com ele enquanto precisasse do seu dinheiro. Ele nunca lhe deu, a ela, o seu devido valor. Ela perdoou-o vezes demais, ela ficou enquanto pode, sempre fiel. Até se ir, de vez. Foi só assim a história. Mais que isto não será. 

quarta-feira, outubro 18, 2017

“It's amazing how a little tomorrow,
can make up for a whole lot of yesterday.”
John Guare
Amanhã existem mais dias

As frases fluem. As gargalhadas atrapalham-se, exigentes e requintadas. Não há peso a mais, a menos apenas o toque. Naturalmente, quero mexer-nos, mesclar-nos, dançar de lugar em lugar - facilmente desenlaçam-se passos acertados, o ritmo é nosso aliado. Não hesitámos testar-nos. Ambos sabemos que estamos ainda a sonhar, de olhos bem abertos, desenhamos, mudos, todos os detalhes, de todos os dias que vamos ver nascer. Estou mais confortável nos teus sussurros melosos, tu menos irrequieta na minha quimera pela tranquilidade. Flui, nunca precisei de to dizer, nunca precisei de me conter. Os sentidos eriçam-se harmoniosos, convergentes, todos eles. Arrisco que, já hoje, nada é perro, o atrito não se importa connosco.

- Fazes-me bem.
- Sabes-me melhor.
Cobre-nos pele ensinada e o queixo levantado impede que nos caia o olhar, não é de agora. Devia haver uma palavra para o estado das coisas que estão entre o viscoso e o líquido, transparentes, lúcidas. É assim que fluímos. Crescemos num ápice, insuflados pelo desejo de nós. As coxas grossas, enchem-nos as mãos abertas, transbordam ligeiramente entre os dedos que agarram. Temos os corpos quentes.  

- Ainda não é tempo de falarmos sobre o queremos depois.
- Os teus olhos ficam pequenos quando tens sono.
- Abraça-me.
Não embarcamos em loucuras, não nos arrebatamos, não procuramos o topo do mundo. Não temos uma bola de cristal. Estamos apenas a arriscar tudo, confiantes que amanhã existam mais dias. Nossos, azuis.